REFLEXÃO SOBRE A FORMAÇÃO DE MEDIADORES

REFLEXÃO SOBRE A FORMAÇÃO DE MEDIADORES
Dia Mundial de Resolução de Conflitos
MEDIARCOM - GRAL
LISBOA 16 de Outubro de 2008




Tratando-se da resolução de conflitos interpessoais, a mediação encontra-se inevitavelmente influenciada pelas diferentes concepções da pessoa humana.
A concepção que cada um tem da mediação e da formação em mediação está relacionada com a visão que cada um tem da pessoa humana e que vai influenciar a sua acção enquanto mediador, de acordo com os valores que sustentam as suas próprias crenças ou motivações. Tal como continuam a ser polémicas as discussões em volta da formação em psicologia, em sociologia, na área da psicanálise e de forma geral, em todas as áreas que se inscrevem na mudança do comportamento humano, a mediação e a formação de mediadores interpela, tal como interpelam todas as áreas do conhecimento que se inscrevem na evolução do comportamento humano.
Na realidade, nesta nova cultura que se mundializa, centrada sobre o sujeito e a individualidade, é interpelado tudo que impõe soluções aos outros, agitando as próprias democracias ao convidar a uma reflexão sobre os seus funcionamentos, sobre a autonomia das pessoas relativamente à tomada de decisão, e consequentemente questionando as estruturas de poder.

A mediação, nesse movimento cultural, é uma palavra que reveste inúmeros conteúdos, quer em Portugal quer no resto do mundo. As inúmeras formações transmitem esta diversidade de diferentes concepções da mediação, existindo inclusive modelos de formação por internet nos E.U e na vizinha Espanha. Sem definição que faça a sua unicidade, verificando-se uma diluição do conceito por vezes confundido com conciliação e até animação ou seja com um pouco de tudo o que implica uma intervenção ternária, também na dimensão formativa se verifica uma diluição das necessidades de formação: existem formações ao nível europeu de 50 horas, 100, 200 e até 500 horas, 3000 horas (carga horária proposta pelo Institut Roger Guilbert em Bruxelas) Ceria Institut Roger Guilbert – Bruxelas sobre três anos).

Há muitas formações, há pouca divulgação do modo como se formam os mediadores, sobre as metodologias concretas dinamizadas, sobre os referenciais teóricos. Existem poucas formações que no seu conteúdo proponham por outro lado, o acompanhamento, a investigação, uma reflexão e uma supervisão das práticas dos mediadores formados e dos projectos profissionais desenvolvidos.

Os conteúdos e a filosofia de formação também estão interligadas com as diferentes concepções da mediação, podemos reconhecer, tal como é tipificada por diferentes autores entre os quais J.L Lascoux que identificam quatro grandes concepções www.pythagore.com/mediawiki/index.php/M%C3%A9diation:



 Uma concepção espiritualista ligada às correntes religiosas em que
a mediação é apenas uma vestimenta laica do perdão religioso judaico-cristão promovendo a coesão, compreensão e respeito mútuo, solidariedade, cooperação, uma qualidade de presença empática. Bonafé-Schmitt (2000) remete a origem da mediação para o movimento religioso dos Quakers que deram origem a inúmeros grupos pacifistas, sendo o mais conhecido o Green Peace. Tal concepção religiosa da mediação parte do pressuposto da bondade fundamental e gentileza do ser humano face a fragmentação das estruturas tradicionais em termos culturais, sociais e familiar, em que mediação aparece com um principio de estruturação das relações humanas, de suavização das fragmentações e da violência. Os mediadores são encarados como reparadores, suavizadores da vida que preconizam a paz, a fraternidade, o amor….
Nessa perspective, segundo P.Lederach (Preparing for the peace: conflict transformation across culture Syracuse University press, 1995), os únicos instrumentos a interiorizar são o kit do “peace building” das recomendações da ONU sobre direitos humanos para reduzir a agressividade, apaziguar as tensões, oferecer acolhimento, conforto, difundindo a ilusão harmoniosa do win-win ou de algo que venha preencher “ o mau estar na civilização” com uma solução mutuamente satisfatória e apaziguadora (Fischer e Ury, 1982).



 Uma visão mais jurídica que preconiza a mediação como a via real
para uma humanização e maior democratização face a um sistema judicial kafkiano pela sua complexidade, formalidade, morosidade e custos que induzem algum enviesamento nas organizações pseudo-democráticas. O mediador aparece como um actor do intermediário num sistema judicial que luta contra os seus disfuncionamentos, contra o excesso de judicialização das relações humanas que questiona sempre sobre a qualidade da comunicação humana, que interroga a dinâmica do saber viver juntos. Face a tal problemática muitos defendem que mediação deveria não representar uma alternativa ou uma via extra-judicial mas um complemento.
A implementação da mediação propõe uma humanização do sistema, chamado justiça de proximidade ou restaurativo orientado para as necessidades concretas dos autores e que proporciona à vitima, até agora esquecida, um lugar mais participativo. Propõe a substituição de um modelo repressivo e neo-retributivo por modelo participativo e reabilitativo.
A mediação aparece, neste contexto, como uma justiça suave mais humanizada, em que prevalece a dimensão juridicca do conflito. A humanização do sistema judicial, reenvia a conceitos de autonomia, autodeterminação, em que o mediador defenda “as coisas justas” “ a justiça” “ a verdade”, não sendo a mediação nem a justiça, nem a verdade, nem o Juiz, e por isso sendo questionada, na sua eficácia pelos operadores do sistema que a qualificam de justiça de segunda classe ou justiça “aspirina”.

 Uma visão mais psicologisante (J.W.Burton, Conflict:humasn needs theory. St.martins Press, 1990) ligada a corrente em que o conflito é um sintoma relacionado com a falta de reconhecimento de necessidades, da expressão dos afectos, das emoções relacionadas com as situações conflituosas. Tal corrente é predominante na maioria das práticas da mediação familiar que recorre na sua expansão a modelos terapêuticos da terapia familiar aos quais foi buscar alguns dos instrumentos (genograma, escuta activa, escuta centrada no outro, técnicas de reenquadramento e positivo…). Fala-se nesse modelo que dá ênfase á dimensão emocional do conflito de conflito latente utilizando a metáfora gráfica já conhecida o iceberg, de clínica da mediação, centrando a intervenção sobre o reconhecimento das dimensões mais afectivas da identidade. Aqui o conflito é um sintoma, uma força destruidora em que a intervenção fica centrada sobre o afecto com técnicas de entrevista que focam a empatia (Carl Rogers, o apelo aos sentimentos, a um quadro facilitador que propicie a expressão verbal de tais necessidades subjacentes (Maslow e Thomas Gordon).

 Uma perspectiva cientifico-filosófica em que a mediação é uma procura constante de individuação, uma escolha consciente e responsável do sujeito encarado numa perspectiva sistémica (que pensa, sente e age quer em relação ás suas próprias formas de funcionamento quer em relação ao funcionamento do outro e coloca o ser humano numa nova forma de conceber a relação consigo próprio e com o outro). Aqui defende-se que os instrumentos de mediação devem ter uma base cientifica relacionado com a evolução das técnicas de comunicação e conhecimento do ser humano. Assim o modelo das Estratégias de Interacção e Comunicação está baseado em conhecimentos neuropsicológicos relacionados aos processos de recepção, tratamento e transmissão da informação.
Posiciona a mediação como um processo dinâmico na evolução do pensamento humano em que representa um desafio da autoridade que não se conforma com a perda de poder de decisão. Propõe substituir uma cultura de adversidade relacionada com a moralização do indivíduo por uma cultura de alteridade. De facto, não é fácil renunciar aos pequenos poderes sobre o outro (advogados, juízos) para iniciar um processo de acompanhamento em que a mediação pode constituir uma disciplina que restitui à pessoa, a cada pessoa, o poder decisório concedido outrora a um juiz, a um árbitro, a qualquer poder hierárquico. A mediação aqui fala-nos de liberdade mas também de responsabilidade individual que só se pode propiciar através de um saber específico que se distancia das grelhas normativas das interpretações do comportamento humano.

Esta mudança de paradigma pode apenas ser consolidada com uma formação longa porque se inscreve numa prática profissional que não se improvisa e que não se compadece com uma formação pontual, mas sim através de formação contínua porque o natural regressa com facilidade. É algo que necessita de um trabalho contínuo e constante, preconizado aliás no código de conduta europeu. Para exercer a mediação é necessário desfazer-se dos reflexos do mundo jurídico, dos diagnósticos, das representações, dos juízos de valores. Ora isso não se pode adquirir num processo de formação breve e definitiva: a mediação implica uma mudança de comportamento….
Necessita de uma formação específica com algo relacionado com a construção do pensamento humano, a construção de um raciocínio, para além dos afectos, que sustente a tomada de decisão.

As competências do mediador trabalham-se através de aquisições de instrumentos específicos de condução de entrevistas e de reuniões, através de uma técnica específica e de um processo peculiar.
- Em que passos consistem essa técnica que permite às pessoas que estão em conflito, que guerreiam, colocar um olhar pacificador sobre o que as opõe? - Quais são os instrumentos que permitem criar um espaço de liberdade para estas pessoas encurraladas, coagidas na sua forma de sentir, pensar, agir…


Como passar de uma lógica de confrontação a uma lógica de cooperação?

Jean-Louis Lascoux desenvolveu um modelo de técnica de entrevista que representa a base de formação das formações de mediadores da Associação Fórum-Mediação que consiste num processo estável e aplicável em qualquer contexto de mediação:
 num quadro de mediação formal
 num quadro de pedagogia da comunicação e de formação
 num quadro de mediação educativa relacionadas com lógicas de intervenção de educação para a cidadania como no caso da mediação comunitária e escolar.
As arenas da gestão do conflito são diversificadas (sistema judicial, empresarial, escolar, culturas organizacionais e institucionais) o importante é centrar-se na forma como se convida e leva as pessoas a aderir a uma cultura de mediação. Um mediador tem que ter formação em competências transversais da mediação para poder assim intervir em todo o tipo de diferendos em que se passa de “uma reflexão sobre a adversidade para uma reflexão em alteridade (reconhecimento do outro na sua diferença)” (sic Jean-Louis Lascoux) www.pythagore.com/mediawiki/index.php/Alt%C3%A9rit%C3%A9
As verdadeiras competências de um mediador são o aperfeiçoamento de técnicas de entrevistas que permitem regular as tensões, fazendo surgir regras que permitam essa regulação.

As técnicas de entrevista centradas no modelo SIC, promovidas nas formações dinamizadas pela Assoicação Fórum-Mediação representam um processo estruturado em volta de regras de comunicação e regras de funcionamento precisas com um fio condutor que permitem uma reflexão do próprio sujeito através da dinâmica de:
 Compreensão do processo;
 Expressão de expectativas face ao processo e conclusão do processo;
 Elaboração de regras de comunicação e funcionamento que poderão representar um obstáculo à comunicação e á gestão do conflito;
 Síntese das situações de cada parte sobre os seus conflitos e das suas soluções em que o mediador elabora na elaboração de um vínculo entre o passado, o presente e o futuro.
 Opção de uma solução com o reexame das saídas que não foram retidas com vista à perenização da solução;
 Materialização do acordo/ da escolha que é materializado num espírito de liberdade contratual como um instrumento de memória e não de suspeição face a sua concretização.

Jean-Louis Lascoux defende que pela criação de instrumentos específicos a mediação tem que ser assumida como uma disciplina na sua integridade.

Pessoalmente, ainda situo a mediação como uma transdisciplina porque ainda está entre e através multireferenciais teóricos do qual importou o seu saber. Mas todas as disciplinas nascem de outras áreas limítrofes do conhecimento e só depois realizam a sua autonomia e nós ainda estamos na idade da pedra da mediação, como estamos na idade da pedra da complexidade do funcionamento humano….


O desafio da formação em mediação é talvez distanciar-se de um modelo multidisciplinar tal como são a maioria das estruturas de ensino/formação para promover esta necessidade de abordagem transdisciplinar quer em relação às outras disciplinas quer em, relação aos próprios modelos de intervenção, com uma análise fina das suas práticas, dos percursos, dos seus resultados que não se pode limitar à análise dos resultados quantificáveis dos acordos (aliás não há acompanhamento da execução dos mesmos a médio e a longo prazo), mas uma análise qualitativa sobre a reconstrução da qualidade relacional que não passa necessariamente por um acordo formal.
O desafio da formação está em introduzir um processo reflexivo com investigação sistemática, uma abordagem metacognitiva da construção dos conhecimentos e da apropriação dos níveis de competência.
A questão que se coloca é saber que tipo de organizações podem propiciar e dar resposta para esta abordagem porque teriam elas próprias - o que representa um paradoxo quando se fala de organização - situar-se como independente, imparcial, neutro características comportamentais e psicológicas preconizados em todos os códigos mas que poucos sabem como operacionalizar.











(2008/10/16 | angela maria lopez)


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